Posto
de gasolina e presente misterioso: assim começou o escândalo do governo.
Em
março de 2014 a polícia federal investigou uma casa de câmbio no posto dando
início à operação Lava Jato.
Protestos
contra o governo federal já levaram milhões de pessoas às ruas nos últimos
meses. O imenso escândalo de corrupção que sitia o governo brasileiro nasceu
quase por azar, em um posto de gasolina. E prosseguiu com um presente caro que
deixou os investigadores intrigados.
O
Posto da Torre ocupa um grande espaço comercial no centro de Brasília e tem,
além de 16 bombas de combustível, um minimercado, um café e uma lavanderia.
Quando a Polícia Federal chegou ali há dois anos, havia também uma casa de
câmbio onde suspeitava-se que ocorria lavagem de dinheiro.
A
operação policial foi batizada de Lava Jato, ainda que no local não houvesse um
serviço de limpeza de carros. O nome passou a ser usado para todo o caso de
corrupção que envolve a Petrobrás e levou para atrás das grades políticos e
empresários poderosos e fez do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva um alvo
de investigação.
Com
mais de 90 condenações realizadas até agora e cerca de R$ 2,7 bilhões
recuperados pelos investigadores, é considerado o maior escândalo do gênero na
história do país.
O
terremoto político desatado pode custar caro à presidente Dilma Rousseff, que
tem índices de popularidade baixíssimos e enfrenta uma ação da oposição para
encerrar seu mandado com um processo de impeachmente no Congresso e outro no
Tribunal Superior Eleitoral.
Lavagem
de dinheiro
Ex-presidente
Lula está sendo investigado na Operação Lava Jato. Era difícil prever todo este
cenário quando os agentes chegaram àquele posto de gasolina em 17 de março de
2014.
"Ninguém
imaginava que a Lava Jato ia se tornar o que é hoje", disse um policial
federal que, desde o início, está próximo das investigações feitas a partir de
Curitiba, no Paraná. "Era algo pequeno que só fez crescer desde então.
CARLOS CHATER
"O
posto em Brasília entrou na mira dos investigadores depois que começaram a ser
monitoradas as comunicações telefônicas de seu dono, Carlos Chater, em julho de
2013. Haviam chegado a ele ao averiguar supostos delitos de lavagem de dinheiro
vinculados ao ex-deputado José Jatene, que, até sua morte, em 2010, tinha
negócios no Paraná.
Organizações
criminosas
Fiscais
brasileiros tiveram trabalho para entender por completo o esquema de corrupção
A supeita era que Chater atuava como doleiro, nome dado no mundo do crime a
operadores ilegais do mercado de câmbio que criam uma espécie de sistema
bancário oculto usado por indivíduos e organizações para ocultar e lavar
dinheiro sujo.
Depois
de monitorar Chater por alguns meses, os investigadores concluiram que, na
realidade, não estavam diante de uma, mas quatro organizações criminosas que
interagiam entre si, tendo doleiros no seu comando.
Uma
delas era encabeçada por Chater, que mais tarde seria condenado à prisão pelo
juiz à frente da causa, Sérgio Moro, por lavagem de dinheiro. Outra das
organizações tinha como chefe Alberto Youssef, que, segundo os fiscais, era um
"antigo conhecido da Procuradoria da República e da Polícia Federal".
Presente
luxuoso
Polícia
Federal já realizou diversas operações e prisões desde o início das
investigações De fato, Youssef já havia sido preso em 2003 por lavagem de
dinheiro e outros crimes contra o sistema financeiro em um caso anterior de
evasão de fundos do banco Banestado.
Naquela
ocasião, ele conseguiu escapar de uma pena maior firmando um acordo de
colaboração inédito no Brasil, para reduzir sua condenação em troca de fornecer
informações, homologado pelo juiz Moro.
O
caso Banestado foi certamente um antecedente chave para o escândalo que
estremece o Brasil agora: além ter à frente o mesmo juiz, vários investigadores
daquele esquema ilícito passaram a trabalhar na Lava Jato. Quando voltaram a
monitorar Youssef por seu vínculo com Chater, os agentes encontraram um email
que aludia a um presente luxuoso: uma caminhonete Range Rover Evoque.
Vínculo
com a Petrobrás
Á
frente do caso, o juiz Sérgio Moro é hoje aclamado por parte da população Eles
se assombraram ao descobrir que o destinarário do presente de Youssef era Paulo
Roberto Costa, que, entre 2004 e 2012, havia sido diretor de abastecimento da
Petrobrás, um cargo crucial no gerenciamento de contratos.
O
vínculo da petroleira estatal com a rede ilegal de lavagem de dinheiro e
subornos acabou sendo exposto para os investigadores. Mas eles só conseguiram
resolver o quebra-cabeças meses mais tarde.
A
primeira fase da Lava Jato iniciada no posto de gasolina em Brasília resultou
em 81 mandados de busca e 28 de prisão preventiva em várias cidades do país. E
foram apreendidos carros esportivos, jóias, obras de arte e relógios de luxo.
O
propósito era desarticular uma rede que lavava dinheiro do narcotráfico, do
comércio ilegal de diamantes e de desvio de dinheiro público.
Reviravolta
Processo de impeachment acirrou polarização social e política no Brasil Costa,
ex-diretor da Petrobrás, foi preso em 20 de março de 2014, depois que seus
familiares foram registrados por câmeras de segurança entrando e saindo em um
edifício onde funcionava a empresa de Costa com bolsas e mochilas.
Segundo
os policiais, eles estavam destruindo provas.
A
colaboração internacional também foi importante: promotores suíços informaram
seus pares brasileiros que havia nos bancos do país mais de US$ 23 milhões (R$
82,6 milhões em valores atuais) em contas pertecentes a Costa.
Tudo
indicava aos investigadores que havia um esquema oculto de desvio e lavagem de
dinheiro proveniente da Petrobrás, mas faltava descobrir exatamente como ele
funcionava e até onde chegava.
Então,
o caso teve uma reviravolta importante quando, em agosto de 2014, Costa chegou
a um acordo de delação para reduzir sua pena. Em troca, deveria devolver
dinheiro, relatar os crimes e indicar os outros implicados. Logo, Youssef fez o
mesmo - e ele tinha bastante o que revelar.
Acordos
de delação
Paulo
Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás, foi uma peça-chave no caso Com esses
novos testemunhos, os promotores denunciaram que as principais construtoras do
país, entre elas gigantes como Odebrecht e Camargo Corrêa, haviam formado um
cartel para repartir entre si contratos multimilionários com a Petrobrás.
Para
obtê-los, pagavam subornos a diretores da empresa e a meia centena de políticos
de diferentes partidos, inclusive o Partido dos Trabalhadores (PT) e seus
aliados.
O
dinheiro desviado variava entre 1% e 3% do valor dos contratos e ia para empresas
que o disfarçava como pagamentos por consultorias para depois passarem por
Youssef e outros doleiros antes de chegar a seus destinatários.
O
escândalo não parou de crescer, alimentando um total de 49 acordos de
colaboração que permitiram recuperar quase metade dos US$ 1,77 bilhão pagos em
subornos, segundo os promotores.
Mil
anos de prisão
Marcelo
Odebrecht, ex-presidente da construtora que leva o nome de sua família, foi
preso por pagar propinas Até o momento, 179 pessoas foram acusadas
criminalmente.
As
condenações já emitidas em primeira instância somam quase mil anos de prisão.
Entre eles, estão o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari, antigos diretores da
Petrobrás e o ex-presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, condenado a 19
anos e 4 meses de prisão.
Youssef
e Costa receberam também penas de 20 anos e alguns meses de prisão cada um.
Mas, como tinham condenações prévias e foram delatores no caso, poderão receber
benefícios de Moro.
Agora,
resta a pergunta de até onde chegará a investigação. Lula investigado João
Vaccari, ex-tesoureiro do PT, foi condenado pela Justiça O ex-presidente Lula
está sendo investigado por suspeitas de ter recebido benefícios das
construtoras. Mas ele nega isso e critica Moro e os investigadores, inclusive
sugerindo que eles causaram prejuízos à economia brasileira.
Na
semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) pediu a Moro que enviasse à
Corte as investigações sobre Lula, que agora deve resolver se continua com elas
ou as devolve total ou parcialmente ao juiz.
Em
sua decisão, o ministro Teori Zavascki criticou o fato de Moro ter divulgado
conversas telefônicas de Lula gravadas por meio de escutas, inclusive uma com a
presidente Dilma Rousseff que aumentou as suspeitas de que ela o nomeou
ministro para dar a Lula foro privilegiado e evitar sua eventual prisão.
A
nomeação de Lula foi suspensa pelo ministro Gilmar Mendes. Nesta semana, o STF
decidiu retirar de Moro, no momento, todos os procedimentos de investigação
envolvendo esta interceptação telefônica do ex-presidente.
Os
ministros foram unânimes ao dizer que cabe à Corte analisar as gravações, já
que envolvem autoridades com foro privilegiado, como Dilma e o ministro Jaques
Wagner.
Os
ministros decidirão se as investigações serão integralmente mantidas no STF ou
desmembradas para que continuem sob a jurisdição de Moro os procedimentos
contra pessoas sem foro privilegiado, como Lula, já que sua nomeação está
suspensa.
A
expectativa é de que na próxima semana o Supremo julgue se ele poderá ou não
assumir a Casa Civil. Enquanto isso, o posto de gasolina onde tudo começou
continua a atender a centenas de veículos por dia na capital do país.
Mas,
agora, faz isso sem abrigar uma casa de câmbio em suas dependências. Leia
também: Oito mapas que definem peso do Brasil no mundo.
Por BBC. Agência Brasil.


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