ENTENDA AS NUANCES DA CRISE
O semblante de insatisfação das duas das principais partes do anunciado acordo de elevação do teto da dívida dos EUA nos diz muita coisa. Em primeiro lugar, tanto republicanos como democratas (as duas maiores alas da política americana) sabem que o buraco é muito mais embaixo.
Além de estarem buscando saída para controlar o rombo e obter mais empréstimos (aumento do limite de endividamento), os dois lados sabem que as possibilidades de recuperação da economia do país são assaz complicadas.
Para se ter uma ideia da gravidade da situação, o plano promulgado por Obama após o aval do Senado prevê uma elevação de mais de US$ 2 trilhões em relação ao limite de endividamento, que supera assim a casa dos US$ 16 trilhões.
A grana é alta, e a única forma de eles diminuírem o buraco para o qual estão cada dia mais sendo tragados é fazendo cortes. E é aí que está também o (outro) problema.
Cortar os gastos com a guerra significa desaquecer a indústria bélica no plano interno. Do ponto de vista externo (geopolítico), significa perda de poder interventivo – no sentido de liderança mundial – e abre uma possibilidade de mudança na correlação de forças internacional.
A outra frente de cortes é com relação a despesas ordinárias do governo. Segundo informam as agências, a princípio o plano não atingiria programas para idosos e pessoas com limitações específicas de saúde, além da previdência social.
Só que em orçamento de governo não há mistério nenhum. Ou se elevam impostos para aumentar a arrecadação, ou se cortam os gastos nas mais diversas áreas, inclusive as sociais.
E o que nos faz crer na veracidade desta tese é exatamente a escolha de um comitê do Congresso para a difícil missão de efetuar um corte de US$ 1,5 trilhão do orçamento até novembro.
Ou seja, a queda de braço entre republicanos e democratas, entre efetuar um corte mais drástico nas contas públicas e “compartilhar o sacrifício” com a elevação dos impostos sobre as camadas mais ricas da população, só teve o primeiro round encerrado, e com ligeira vantagem dos mais conservadores.
Mas o principal alerta nessa discussão toda vai além das consequências do que ficou definido nesse acordo. As chances de uma recuperação duradoura da economia americana, dada a pouca possibilidade de competição com mercados que praticam uma taxa de extração de mais-valia muito mais alta do que a sua, não são das melhores.
É fato que um coelho da cartola pode ser tirado, como a venda das chamadas reservas de ouro que possui o tesouro americano. Mas que aquela máxima de “dias melhores virão” não se vislumbra – pelo menos por agora – no horizonte dos americanos, isso sim nos parece uma verdade.
Uma população como a americana, com o padrão cultural atingido, não vai se submeter a jornadas extenuantes de 14 horas, como faz o comunismo às avessas na China.
Tampouco, apesar da tradição menor em relação à Europa, aceitará passivamente uma queda ainda maior no seu padrão de vida, como inevitavelmente acontecerá, caso se confirme, com o corte nos gastos sociais (e tudo indica que isso vai acontecer).
A reviravolta que uma crise desta proporção, sem data e hora para terminar, pode provocar ainda não é muito clara. Além de se arrastar e do provável risco de piora, não se sabe como seus efeitos poderão reconfigurar o cenário econômico internacional.
Todavia, a falta de uma alternativa concreta na ordem do dia ao modelo econômico imperante nos causa uma frustração. Principalmente, pelo fato de que se está diante de um inimigo quase abatido. Mas, para todos os efeitos, a história continua. E só ela poderá revelar o desfecho desse conturbado cenário global.
Jornal do Brasi. Rogério Castro
Rogério Castro é jornalista e mestre em serviço social pela Universidade Federal de Alagoas

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