ZAGALLO FAZ OITENTA ANOS AMANHÃ.
E pedaço de tecido para nova condecoração. Nascido em Maceió, criado na Tijuca, no Rio, Mário Jorge Lobo Zagallo, único tetracampeão mundial, apaga a 80 vela de aniversário nesta terça-feira. São 80 anos de conquistas.
Da Suécia à França. No Maracanã. Devoto de Santo Antônio, ele não abandona o número da sorte — "tenho 13 herdeiros" — e, em mais de uma hora de bate papo, conta que o presente que pede a Deus é assistir à seleção brasileira ser campeã mundial em 2014, no Brasil, e revela que era um talento do tênis de mesa antes de virar jogador de futebol.
— Quero saúde para ver o Brasil hexa. Quem dera se fosse sobre o Uruguai. Mas eles não chegam à final — afirma Zagallo, formado em Contabilidade no Instituto Vera Cruz.
Como foi sua infância?
Jogava pelada na rua. Não tinha carro no meio da rua (ruas Heitor Beltrão com Professor Gabizo). As árvores e a parede formavam o gol. Mas eu joguei e fiz gol no Maracanã antes de ele existir.
No Derby Clube, no processo de demolição, ia para lá jogar. Marcava o gol com pedras, onde eram as cocheiras. Isso em 1947, 1948. Fiz gol no Maracanã (risos).
Antes de ingressar no futebol, o Zagallo jogava...
Cheguei a jogar tênis de mesa. Fui federado pelo América. Eu era bom. Disputei num mesmo ano a Terceira, Segunda e Primeira Divisões. Parei por causa do futebol.
O que você acha de não ter mais preliminares?
Pô... Era fantástico o aspirante. Depois de ter sido campeão mundial em 1958, pedi ao Paulo Amaral (técnico do Botafogo) para jogar. Havia passado por cirurgia, estava há oito meses sem jogar. Faltavam três jogos para o fim do campeonato. Fui campeão. Pelo Flamengo, fui bicampeão.
Você recebeu o apelido de Formiguinha em 58?
Eu gostava. A formiga é uma batalhadora.
E como surgiu?
Tenho que agradecer ao Fleitas Soliche (Flamengo) e o Vicente Feola (seleção). Quando firmei na posição, o futebol mudou sua estrutura do 4-2-4 para o 4-3-3. A ideia foi minha. Fazia esse papel de ponta. Era ponta esquerda com a bola nos pés e fechava o meio sem ela.
Era o batalhador mesmo?
Eu era a terceira opção. Tinha Canhoteiro e Pepe. Mas deram uma chance e eu belisquei. Estreei em 58. Era um Brasil e Paraguai para 200 mil pessoas no Maracanã. Joguei porque a minha parte física estava melhor. O Pepe e o Canhoteiro tinham problemas físicos. Fiz dois gols e fui em frente.
A postura tática só completou a decisão de deixar de ser camisa 10 nos clubes?
Quando era do América, vestindo a camisa 10, pensei: se quero ir à seleção, tenho que mudar de camisa. Com a 10 só tem fera. Passei para a ponta esquerda. Não sou bobo, né.
E na vida pessoal? Como conquistou a sua esposa, dona Alcina?
Ela era aluna do Instituto de Educação. Mas a conheci no carnaval no América. Era a Batalha dos Confetes. Joguei lança perfume nela (risos). $é que casei no dia 13 de janeiro de 1955. Todo o meu sucesso devo a ela. Tudo foi realizado graças a minha conduta com ela e ela comigo. Éramos dois. Agora, somos 13. Quatro filhos, seis netos e três bisnetos. Olha o 13 aí.
E os fatos marcantes?
Na vida esportiva, a Copa de 1958, o tricampeonato em 1950... E vou incluir o tetra em 1994. Eu e Parreira. Não posso deixar de fora o vice-campeonato de 1998, com todo aquele problema do Ronaldo.
O gol mais importante?
Fiz um contra a Suécia. E o contra o México. Este foi aos 12m do segundo tempo no Carbajal, uma lenda no gol mexicano. Estava 0 a 0 quando dei um peixinho e coloquei a bola na gaveta. Algo improvável (risos).
E a maior tristeza do Velho Lobo nas quatro linhas?
A Olimpíada em 1996 (Atlanta). Estávamos vencendo por 3 a 1 e fomos eliminados na morte súbita.
E os melhores amigos?
Um morreu, o outro está vivo. Um é o Admildo Chirol. E o outro é o Parreira. Trabalhei muito com ele.
E inimigo?
Não tenho. Tive alguns problemas. O Romário fez aquilo de me colocar sentado na privada. A Justiça reparou isso. Ganhei a causa. Ele fez isso porque ficou fora da Copa de 98. Ele estava machucado. Eu tomei a decisão e fui falar com ele: Tô cortado? Ele me perguntou. Eu disse sim.
Disse que voltaria da França e jogaria pelo Flamengo. Não jogou. Ficou claro que não tinha condições.
Tem outro caso com ele?
Em 1997, bastou o Edmundo entrar no jogo para ele colocar a mão na coxa e sair capengando. Eles eram desafetos. Até a final, ele tinha três dias para jogar. No primeiro, estava mal. No segundo, se animou. No terceiro, pedi ao Prima (Luis Carlos) para fazer o Romário dar dez piques fortes. Ele deu normalmente. E pedi para o Prima perguntar a ele se estava bem.
Aí o Romário disse que ia fazer teste no gramado. Barrei. Não tinha nada. Corri o risco, mas tomei a decisão certa. Na preleção, disse tudo aos jogadores.
Alguém vai ganhar mais Copas do Mundo do que você?
Tenho que agradecer a Deus. Sou tetracampeão mundial e vice em 1998. Acho que.. (para superar) não sei, tem que jogar na roleta. É um negócio bem difícil alcançar.
O Zagallo é Flamengo ou Botafogo?
O Zagallo é Brasil. Joguei oito anos na Gávea. E fiquei 12 no Botafogo. E no Botafogo iniciei como técnico. Gosto dos dois. Não vou dizer que sou um e a torcida do outro ficar contra mim. Levei até hoje (risos)..
Você nunca aceitou a derrota e até soltou o desabafo "vocês vão ter que me engolir". Tem ainda o aviãozinho para o técnico da África do Sul?
O vocês vão ter que me engolir não foi premeditado. E o aviãozinho foi porque aquele técnico não respeitou minha folha corrida. Azar o dele.
E a relação com o torcedor?
Tranquila. No Maracanã, tinha um que ficava: mexe, Zagallo, mexe. Eu rebolei. Mexi, né. Todo mundo riu dele.
Jornal EXTRA ONLINE. Guto Seabra

Nenhum comentário:
Postar um comentário