O país no vermelho.
Inflação e juros altos, crédito escasso, dólar a R$
4 e desemprego epidêmico construíram o cenário perfeito para a escalada do
calote.
Um dos principais sintomas da saúde econômica de um
País é a capacidade de cidadãos e empresas honrarem seus compromissos
financeiros. Nesse aspecto, o Brasil é uma nação doente. Nas últimas semanas,
saíram os indicadores relativos ao nível de inadimplência das pessoas físicas e
jurídicas.
Por mais que a crise seja uma realidade visível, é
uma surpresa conhecer a dimensão da tragédia. Segundo levantamento do Serviço
de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), 57 milhões de brasileiros – o equivalente
a uma Itália inteira – estão com o CPF negativado (só aparece nessa condição
quem tem contas em atraso). Significa, portanto, que cerca de 30% da população
não consegue quitar seus boletos em dia.
Entre janeiro e setembro, 2,4 milhões de
consumidores – ou 8,8 mil por dia – tiveram seus nomes incluídos no cadastro
dos devedores, um recorde histórico. As empresas enfrentam as mesmas
dificuldades. Segundo o Serasa Experian, metade das firmas em operação no
Brasil, o que corresponde a 4 milhões de CNPJs, não tem conseguido pagar suas
faturas dentro do prazo.
O motivo é o flagelo econômico do País.
“A recessão tem sido terrível para as empresas e a
população em geral”, resume Luiz Rabi, economista do Serasa Experian.
A combinação de inflação alta, juros
elevados e desemprego crescente alimentou a escalada do calote. E não há outra
razão para um panorama tão negativo a não ser a política econômica das duas
últimas administrações petistas.
O presidente Lula adotou medidas
radicais de estímulo ao consumo, diminuindo os juros bancários e facilitando o
crédito. No começo, a iniciativa até provocou algum efeito positivo ao oferecer
oportunidades para milhões de brasileiros.
O problema é que o governo não se deu
ao trabalho de fazer correções de rumo. O consumo sem freio estimulou a alta de
preços. Ao mesmo tempo, os juros subiram e os investimentos começaram a rarear.
Daí para o desemprego foi um passo rápido.
A soma desses fatores se tornou um
fardo pesado demais. As contas, afinal, continuaram chegando e as pessoas se
viram obrigadas a escolher quais dívidas pagar.
“O brasileiro passou a viver no
limite do orçamento”, diz Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil.
Segundo a especialista, os inadimplentes têm atrasado principalmente as faturas
de energia elétrica, água e telefone, que cobram juros menores.
Muitos brasileiros perderam o emprego, mas as
contas
continuaram chegando. O jeito foi escolher o que pagar
continuaram chegando. O jeito foi escolher o que pagar
Para as empresas, a falta de dinheiro
no bolso da população tem um impacto devastador. As indústrias vendem menos. O
comércio fica parado. Para manter suas operações e gerar caixa, as companhias
recorrem a empréstimos bancários. O problema é que o crédito sumiu.
Quando aparece, é caro demais.
Segundo o economista Luiz Rabi, do Serasa Experian, 90% das negativações são de
pequenas empresas que não têm lastro para suportar a crise. As demissões em
massa também acabaram se revelando um problema.
“O custo demissionário é muito alto
no Brasil”, diz o doutor em economia e coordenador do Ibmec, Reginaldo
Nogueira. “Com tudo isso, a pressão sobre as finanças das empresas tem sido
muito grande.” A crise é nacional, mas causou estragos maiores na região Sudeste,
que concentra 50% do PIB do Brasil.
O número de firmas inadimplentes
nessa parte do País aumentou 17% em
agosto ante o mesmo mês do ano passado – em nenhuma outra região o calote
cresceu tanto. Outro dado mostra que as dificuldades não vêm de agora. Segundo
o Serasa, 70% das dívidas em nome de pessoas jurídicas estão com mais de um ano
de atraso, índice jamais contabilizado pela instituição.
Na semana passada, os indicadores
negativos não deram trégua. Na quinta-feira 29, dados do Pnad mostraram que o
desemprego subiu a 8,7% no trimestre encerrado em agosto, o maior índice desde
2012, quando o IBGE começou a divulgar a pesquisa mensal.
No mesmo dia, a Associação Brasileira
de Supermercados (Abras) revelou que, em setembro, as vendas do setor caíram
3,94% na comparação com o mês anterior e 3,11% ante agosto de 2014. O dado
preocupa porque o setor de supermercados é o último a sentir os efeitos da
crise.
Enquanto a economia do País patina, o
ministro da Fazenda, Joaquim Levy, continua sua solitária cruzada pelo ajuste
fiscal. “O problema fiscal ainda não foi tratado com a energia que deveria e
muita gente no Congresso sabe disso”, afirmou em entrevista concedida em
Londres, na quinta-feira 29.
Desta vez, porém, Levy se revelou
mais otimista. “Temos uma grande população, um grande mercado consumidor,
companhias fortes. Precisamos criar um cenário em que as pessoas se sintam
confiantes para avançar.”
Ludmilla Amaral (ludmilla@istoe.com.br).
Revista ISTOÉ online.


Nenhum comentário:
Postar um comentário