O pequeno grande problema
da louça suja.
O
mundo está um caos. A economia está ruindo. O noticiário é deprimente.
As crianças não aguentam mais ficar em casa. Os pais precisam de uma folga.
Todos estão cansados da vigilância necessária
para evitar o vírus, que não se cansa. E sinto informar que a
pia está cheia de louça suja. Outra vez.
Um
efeito colateral do fato de agora fazermos as três refeições em casa (e os lanchinhos também), com os
refeitórios das escolas e as cozinhas dos restaurantes não mais responsáveis
por lidar com sua parcela das consequências imundas.
A louça é o menor dos nossos problemas.
O menor deles. E é tão fácil de resolver:
sabão, água, esfregar um pouco. Pensando bem, como ousamos lamentar essa tarefa
tão simples diante de tudo que estamos vivendo? E como você ousa concordar com
essa afirmação?
Ainda
assim, uma pia eternamente cheia de pratos sujos é uma imagem de tudo que há de
tedioso e cansativo a respeito do cotidiano na ponta menos crítica da crise.
A louça é interminável, como a quarentena.
A
tarefa é repetitiva, como os dias que passamos em casa. É cansativa e suja,
como os compromissos que preenchem essa rotina. E, de alguma forma, há ainda um
elemento de vergonha e julgamento: quem pode dizer que está com a vida
minimamente sob controle quando não dá nem para fazer a tostadeira caber sob a
torneira?
É
verdade que a louça suja é o menor dos nossos problemas. Mesmo assim, é um
problema que evitamos até nos vermos tomando cereal no copo de requeijão com
uma colher de café.
Talvez
a soma dos demais problemas tenha tornado essa tarefa mais pesada. Foi assim
que Benji Kaufman se sentiu. “Depois de cozinhar, temos que enfrentar as
consequências de nossas ações nesse cotidiano.
Lavar
a louça não era o que tínhamos em mente", explica Kaufman, de 27 anos,
ator e gerente de logística que mora em Burbank, Califórnia, com a namorada.
Tempos atrás, houve uma época em que Kaufman e a namorada faziam duas ou três
refeições juntos durante a semana.
Agora
são três refeições por dia, sete dias por semana. Vinte e uma refeições ao
todo. E, depois de cada uma delas, restava a louça por lavar, uma tarefa que
nunca parecia urgente. Afinal, eles não tinham mais para onde ir.
As
coisas seguiram assim até o ponto em que não havia mais tigelas limpas para os
humanos, nem para o gato ou o cachorro. Tiveram que carregar a máquina de lavar
louça duas vezes para eliminar o acúmulo e, quando o processo chegou ao fim,
mais pratos estavam sujos.
Inspirado
pela agonia dessa derrota, Kaufman decidiu fazer um vídeo no TikTok a respeito do tema. O vídeo começa com Kaufman
fechando a porta da lava-louça cheia. Então, quando olha para a pia, uma nova
xícara apareceu.
A
cada vez que Kaufman olha para a pia, a louça suja se multiplica e o horror de
aumenta. Ao fim do clipe de 24 segundos, ele está debruçado na pia, chorando ao
som de uma música do desenho animado Bob Esponja.
“Como
posso controlar minha vida?" disse ele. “Não consigo controlar nem mesmo
minha louça suja."
Mais
ao norte, em Seattle, Gwendolyn Wood sente o drama de Kaufman.
Gwendolyn, de 27 anos, é uma designer gráfica que se candidatava a lavar a
louça suja antes da pandemia, como forma de dividir as tarefas com a colega de
quarto, muito mais ordeira.
Ela
lavava a louça sempre na mesma hora, como um relógio. Então o namorado de
Gwendolyn veio morar com elas, multiplicando a louça.
Finalmente,
a quarentena destruiu o ritmo da rotina deles e turbinou a tendência dela à
procrastinação. “Bem, acontece que me distraí com o celular, e agora preciso
trabalhar. Não dá tempo de lavar a louça.”
Agora
a lógica de Gwendolyn para a hora de lavar a louça se inverteu: cuida apenas
dos pratos e talheres necessários para a próxima refeição e, depois de comer,
deixa a louça suja na pia até a hora da próxima refeição. A pia assumiu a
função do armário.
Em
uma aquarela que pintou recentemente, ela retratou o esforço necessário para se
enfrentar outra pia cheia de louça.
É
uma versão do mito grego de Sísifo, condenado pelos deuses a passar a
eternidade empurrando uma pedra montanha acima, que volta a rolar até a base e
deve ser empurrada novamente. Na pintura de Gwendolyn, Sísifo não está
empurrando uma pedra, mas um prato.
David Robertson,
pai de cinco filhos e morador de Manitoba, Canadá, jura que em dois meses de
reclusão não viu nenhum dos filhos abrir a máquina de lavar louça. É como se
não entendessem para que serve.
"Não
importa o que eu diga", diz Robertson, um autor, “eles largam a louça suja
no balcão ao lado da lava-louça".
Tão
perto e tão longe. Talvez eles saibam que, ao abrir a lava-louça, corre-se o
risco de encontrar uma das imagens mais assustadoras imagináveis: fileiras de
pratos limpos que precisam ser guardados.
Com
isso, o desgaste dos pais e a resistência dos filhos se tornou um ciclo
desgastante em si. Será que Robertson e a mulher começaram a se poupar?
Do
outro lado da linha, ouço um profundo suspiro dos canadenses. “Não deixamos de
tentar, mas, ao mesmo tempo, não temos esperança que alguma coisa mude",
diz ele. “Realmente, não sei por que nos torturamos com isso."
E
a família Robertson tem sorte, pois tem uma lava-louça. Afinal, em alguns
lares, Sísifo possui uma caminhonete. Eles apertam o botão “iniciar ciclo” e
podem ouvir os jatos de água ensaboada que parecem sussurrar.
“Pode
ir relaxar um pouco, eu cuido disso". Os demais precisam esfregar
manualmente cada resto de queijo seco em cada prato, e depois brincar de Jenga
com um escorredor do qual nada mais parece escorrer.
Não
é uma missão gloriosa, mas pode trazer alguma sensação passageira de
realização. Nossas vidas estão suspensas, mas ao menos aquele prato, reluzente
e pronto para o uso, representa algum tipo de progresso. Uma tarefa a menos na
lista. Um peso a menos nas costas.
Callum Grant,
integrante do Blue Man Group e morador de Chicago, reuniu recentemente a
coragem necessária para encarar uma pia cheia de louça e, em seguida, foi ao
Twitter comemorar a façanha: "#COVID19 Como eu ajudei? Como contribuí para
o bem maior? Quais foram os dolorosos sacrifícios que fiz? .... Lavei a #louça
. . . de novo".
Kaufman
talvez tenha inveja desse momento de orgulho, por mais que seja apenas
sarcasmo.
Conversando
pelo telefone às 17h30 de uma terça feira, ele relatou o estado atual da sua
louça suja: “A pia está cheia. A lava-louça está cheia de pratos limpos que
estão esperando ali há dois dias. Ainda não guardamos nada". Ele soube que
há pessoas por aí que lavam os pratos imediatamente após o uso, guardando-os no
devido lugar.
“Sempre
que zeramos a pia, ambos dizemos, 'OK, de agora em diante, vamos enxaguar a
louça imediatamente depois de usar e colocar tudo na máquina’”, conta Kaufman.
Um
pouco resignado, ele acrescenta, “Se isso acontecer um dia, entro em contato
para informar”. /
Ellen McCarthy.
Tradução
de Augusto Calil.
Conteúdo
Jornal ESTADÃO.
Portal
MSN.
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