Como dormir
melhor (e em menos tempo).
Algumas experiências já mostraram que é
possível aumentar a eficiência da atividade noturna do cérebro.
É comum o pouco tempo de sono ser
usado como motivo de orgulho, como uma espécie de prova de que se leva uma vida
extremamente agitada.
Personalidades como Thomas Edison, Margaret Thatcher, Martha Stewart e
Donald Trump relataram dormir de quatro a cinco horas por noite — muito menos
que o período de sete a nove horas de sono recomendado para adultos.
Muitos de nós estão seguindo o exemplo daquelas personalidades: de
acordo com os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, mais
de um terço dos adultos americanos não conseguem dormir o suficiente
regularmente.
As consequências disso, como
problemas de memória e maior propensão a infecções e obesidade, são bem
conhecidas — mas fáceis de ignorar.
Quando há muito o que fazer durante o
dia, o sono ainda é o principal sacrificado.
Mas e se pudéssemos simplesmente otimizar a experiência do sono para que
desfrutássemos da maioria dos benefícios do sono profundo, só que em menos
tempo?
A ex-primeira-ministra do Reino Unido
Margaret Thatcher é uma das muitas figuras poderosas da história que afirmaram
dormir quatro ou cinco horas por noite, bem abaixo dos níveis ideais
Essa possibilidade pode estar mais próxima do que parece, graças a novas
técnicas de "otimização do sono".
Algumas experiências em diferentes partes do mundo mostraram que é
possível aumentar a eficiência da atividade noturna do cérebro — acelerando a
chegada ao sono profundo e melhorando o descanso quando chegamos lá.
Parece quase bom demais
para ser verdade. Mas é isso mesmo?
Uma batida mais lenta
Em uma noite normal, o cérebro passa por estágios diferentes do sono,
cada um com um padrão característico de ondas cerebrais, em que neurônios de
diferentes regiões do cérebro atuam juntos, em sincronia, em um ritmo
específico.
É como uma multidão cantando ou tocando alguma batida em uníssono.
Durante a fase R.E.M., do ("movimento
rápido dos olhos") (tradução livre), esse ritmo é bastante rápido. É
também este o período mais provável em que sonhemos.
Mas, em certos momentos, nossos olhos deixam de se mover, nossos sonhos
desaparecem e o ritmo das ondas cerebrais cai para menos de uma
"batida" por segundo — momento em que entramos em nosso estado de
inconsciência mais profundo, chamado "sono de ondas lentas".
É este estágio que tem sido de
particular interesse para os cientistas que investigam a possibilidade da otimização do sono.
Desde os anos 1980, pesquisas
vêm mostrando que o sono de ondas lentas é essencial para a manutenção do
cérebro. Ele permite que as regiões cerebrais transmitam nossas memórias do
armazenamento de curto ao longo prazo — para que não esqueçamos o que
aprendemos.
"As ondas lentas facilitam a transmissão de informações", diz
Jan Born, diretor do Departamento de Psicologia Médica e Neurobiologia
Comportamental da Universidade de Tübingen, Alemanha.
As ondas lentas também podem desencadear o fluxo de sangue e líquido
cefalorraquidiano (material que circula entre o cérebro e a medula espinhal)
pelo cérebro, liberando detritos potencialmente prejudiciais que poderiam
causar danos neurais.
Elas também reduzem o hormônio associado ao estresse, o cortisol, e ajudam a rejuvenescer o
sistema imunológico.
Tais resultados levaram cientistas, incluindo Born, a considerar que
aumentar a produção dessas ondas lentas poderia impulsionar os benefícios do
sono e melhorar nossa atividade diurna.
Mais empresas estão buscando
ferramentas para facilitar o acesso ao sono profundo, essencial para a
manutenção da memória e do cérebro
Uma das técnicas mais promissoras para isso funciona um pouco como um
metrônomo que conduz a atividade no cérebro ao ritmo certo. Em experimento,
participantes dormem usando um dispositivo preso à cabeça que acompanha a
atividade cerebral e é capaz de notar o início da produção de ondas lentas.
Nesse momento, o dispositivo emite pulsos curtos de som suave em
intervalos regulares durante a noite, em sincronia com as ondas lentas naturais
do cérebro.
Os sons são silenciosos o suficiente para evitar acordar o participante,
mas altos o suficiente para serem registrados, inconscientemente, pelo cérebro.
Born liderou grande parte do trabalho experimental, descobrindo que esse
estímulo auditivo suave é apenas o suficiente para reforçar os ritmos cerebrais
necessários.
Os participantes que usaram o dispositivo tiveram um desempenho melhor
nos testes de memória, mostrando uma melhor capacidade de recordar o que haviam
aprendido no dia anterior.
Também foram observadas melhoras no equilíbrio hormonal, com redução nos
níveis de cortisol; e no sistema imunológico.
Nos testes realizados até agora, os participantes ainda não relataram
consequências indesejadas.
"Não
podemos ter certeza, mas até agora não há efeitos colaterais óbvios", diz
Born.
Dormir melhor em uma loja perto de você
A maioria dos estudos que tentam incrementar o sono de ondas lentas foi
realizada em pequenos grupos de participantes jovens e saudáveis.
Para ter certeza dos benefícios dessas técnicas, precisaríamos assistir
a experimentos maiores em grupos mais diversos. Mas essas evidências já
existentes permitiram à chegada ao mercado de um punhado de dispositivos para
auxiliar o sono, principalmente na forma de faixas de cabeça para serem usadas
durante a noite.
A start-up francesa Dreem, por exemplo, produziu uma faixa (disponível
por cerca de € 400 ou R$ 1,8 mil) que também usa a estimulação auditiva para
estimular o sono de ondas lentas, com uma configuração semelhante à dos
experimentos científicos — que foram confirmados por outros estudos.
O Dreem também se conecta a
um aplicativo que analisa os padrões de sono e oferece conselhos e exercícios
práticos, como meditação, para favorecer uma melhor noite de sono.
A
faixa de cabeça para sono profundo SmartSleep, da Philips, explicita buscar contornar os efeitos negativos da
privação de sono — para pessoas "que, por qualquer que seja o motivo,
simplesmente não estão se dando uma oportunidade adequada de sono", diz
David White, diretor científico da Philips.
A gigante da eletrônica Philips também
está entrando no jogo da assistência ao sono.
Esse produto foi lançado pela primeira vez em 2018 e, como o Dreem,
trata-se de uma faixa para a cabeça que detecta a atividade elétrica do cérebro
e reproduz periodicamente pequenos impulsos de som para estimular as oscilações
lentas que são características do sono profundo.
O dispositivo conta com um software que controla cuidadosamente o volume
do som ao longo do tempo para garantir que ele dê o nível ideal de estímulo
para cada usuário. Hoje, o produto está disponível apenas nos EUA por cerca de US$ 399 (cerca de R$ 1,6 mil).
White concorda que o dispositivo não pode substituir completamente uma
noite de sono, mas lembra que é notoriamente difícil convencer as pessoas que
costumam dormir pouco a fazer as mudanças necessárias no estilo de vida. Ao
ampliar os benefícios do sono, esse aparelho ao menos contribui para a
atividade cotidiana.
Nesse sentido, as próprias experiências da Philips confirmaram que o
SmartSleep aumenta o sono de ondas lentas em pessoas privadas de sono e atenua
alguns dos efeitos imediatos dessa situação, como uma pior consolidação da
memória.
Pesquisas futuras podem sugerir ainda mais maneiras inovadoras de
otimizar o sono. Aurore Perrault, da Universidade de Concordia, no Canadá,
testou recentemente uma cama de balanço suave que oscilava para frente e para
trás a cada quatro segundos.
Ela
diz que a técnica foi inspirada no bebê recém-nascido de um colega sendo ninado
para dormir, levando a equipe a se perguntar se os adultos também podem se
beneficiar desses movimentos suaves.
Eles descobriram que participantes de testes entravam mais rápido na
fase das ondas lentas e passavam mais tempo nela quando as ondas cerebrais se
sincronizavam com o movimento externo.
Como era de se esperar, eles também relataram sentir-se mais relaxados
no final da noite, e isso foi novamente acompanhado pelos benefícios esperados
para sua memória e aprendizado.
"Essa foi a cereja do bolo", diz Perrault.
Se uma cama desse tipo for lançada no mercado, ela deverá ter um
propósito semelhante às faixas de cabeça que estimulam sons. Perrault está
particularmente interessado em ajudar as pessoas mais velhas, já que a
quantidade de tempo no sono profundo parece diminuir à medida que envelhecemos,
contribuindo potencialmente para alguns problemas de memória relacionados à
idade.
Ainda assim, procure dormir
Algumas pesquisas mostraram que
estímulos físicos externos, como o ato de balançar um bebê, ajudam também os
adultos a dormir melhor.
Embora o campo ainda esteja em sua infância, esses estudos mostram que
há muitas promessas no ramo da otimização do sono.
Perrault e Born são otimistas quanto ao potencial dos produtos
comerciais que recorrem a pulsos sonoros para estimular essas ondas lentas
regenerativas. Perrault enfatiza que ainda precisamos de estudos mais amplos
para garantir sua eficácia fora das condições controladas do laboratório — mas
ela comemora a perspectiva de beneficiar uma população maior.
No futuro, será interessante ver se a otimização do sono também pode
trazer benefícios a longo prazo.
Sabemos que a perda crônica de sono pode aumentar o risco de doenças
como diabetes e até Alzheimer — mas não está claro se essas novas técnicas
ajudarão a reduzir tais riscos.
Por enquanto, a única maneira garantida de colher todos os benefícios do
sono — tanto a curto quanto a longo prazo — é garantir que você tenha o
suficiente dele. Independentemente de você decidir experimentar esses
dispositivos, é desejável ir dormir mais cedo e evitar álcool, cafeína e uso de
telas antes de dormir, fatores esses conhecidos por prejudicar a qualidade do
sono.
Nosso cérebro não pode funcionar sem recarga — e qualquer pessoa que deseje viver uma vida feliz, saudável e produtiva
precisa acordar para esse fato.
IMAGENS
GETTY IMAGES.
David
Robson BBC.
Conteúdo
BBC, Brasil
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